A morte do pequeno Domenico, de apenas 2 anos, na Itália, reacendeu o alerta global sobre os riscos logísticos envolvidos no transporte de órgãos para transplante. A criança faleceu no último sábado após receber um coração danificado durante o transporte, em um caso que está sob investigação judicial e mobilizou autoridades, líderes políticos e a opinião pública internacional.
Segundo informações divulgadas pela BBC, o órgão percorreu mais de 800 quilômetros entre Bolzano e Nápoles em um contêiner inadequado, em contato direto com gelo seco e sem monitoramento de temperatura. O tecido teria sofrido danos por congelamento, comprometendo a viabilidade do transplante. Domenico permaneceu internado por quase dois meses e sofreu uma piora clínica irreversível, e o episódio levou a família a pedir ajuda ao Papa, além de provocar manifestações públicas da primeira ministra Giorgia Meloni e do ministro da Saúde italiano, que cobraram esclarecimentos e responsabilização.
“O caso expôs um ponto crítico da cadeia de transplantes, que é a logística térmica. Em procedimentos desse tipo, minutos e variações de temperatura podem definir a longevidade ou a perda de um órgão viável, e os métodos tradicionais baseados em gelo oferecem uma janela limitada de segurança, além de apresentam riscos operacionais”, afirma Lídia Linck, CEO da Biotecno, empresa brasileira que desenvolveu o sistema Taura de transplante de órgãos.
Segundo ela, o Taura foi projetado para transportar órgãos sólidos, como coração, fígado e rins, em condições térmicas controladas, com monitoramento contínuo e sem contato direto com gelo. “É uma tecnologia 100% nacional que começa a ganhar destaque internacional como alternativa disruptiva para evitar tragédias semelhantes como a que ocorreu na Itália, pois o sistema reduz em até 70% a rejeição do órgão transplantado e diminui o tempo de recuperação em unidades de terapia intensiva. Diferentemente dos métodos tradicionais, que mantêm a segurança por cerca de duas horas, o Taura preserva o órgão a 6 graus Celsius por até dez horas, ampliando a janela de transplante e reduzindo riscos logísticos”, explica.
Recentemente, o equipamento foi fundamental em dois transplantes pediátricos em situações críticas. Um menino de 1 ano e 8 meses recebeu um coração com suporte do sistema, e nesta semana uma criança de 8 anos passou por transplante de órgão com auxílio da tecnologia e conseguiu ser extubada em apenas 8 horas, tempo considerado recorde dentro das previsões clínicas.
“O que diferencia o equipamento desenvolvido é a utilização de baterias VRLA, que não apresenta risco de combustão e são homologadas para aviação comercial, além de um sistema que dispensa o uso de gelo e exige, apenas, calibração térmica obrigatória, o que garante previsibilidade durante o transporte”, ressalta a CEO.
De acordo com Lidia Linck, cada unidade custa aproximadamente 35 mil reais e é comercializada em pares, como medida de segurança, com vida útil estimada entre cinco e seis anos. “O modelo contrasta com soluções descartáveis adotadas nos Estados Unidos e na Europa, cujo custo gira em torno de 5 mil dólares por unidade.
Optamos por um caminho sustentável, com tecnologia reutilizável e suporte técnico permanente”, afirma.
Para a CEO da companhia, a discussão levantada pelo caso italiano evidencia a urgência de soluções tecnológicas confiáveis. “Em saúde, falhas operacionais não são abstrações, pois elas colocam pessoas em risco e o nosso objetivo é reduzi-lo onde ainda existe. Quando um órgão chega em melhores condições, as chances de sobrevivência deixam de ser estatística e passam a ser realidade”, afirma.
A adoção do Taura em centros brasileiros tem mostrado impacto direto no pós operatório. De acordo com Juglans Souto Alvarez, cirurgião especialista em transplante cardíaco e assistência circulatória mecânica, com atuação no Canadá e nos Estados Unidos por duas décadas e agora diretor cirúrgico para o programa de transplantes do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, o tempo e a qualidade de recuperação pós-operatórios são muito melhores com a tecnologia, impactando custos hospitalares e prognóstico dos pacientes. Também torna possível a ampliação da área geográfica para captação de órgãos, com cobertura de todo o território brasileiro. Algo que vai melhorar os índices de aproveitamento dos corações doados “Em resumo, melhor preservação por um tempo maior. Os corações doados poderão ficar mais tempo preservados em parada cardíaca, entre a captação e o implante. O limite antigo de 4h é modificado para mais de 6h, com segurança”, diz ele.
No Brasil, o Taura já foi usado em mais de 20 transplantes. Os resultados replicam o que a tecnologia de preservação de órgãos para transplante sob temperatura controlada tem mostrado também na América do Norte e alguns países da Europa.
No Brasil, a técnica se prepara para ganhar novas proporções com a confirmação da patente do Taura. “O caso de Domenico, embora trágico, reforça a necessidade de protocolos mais seguros.
Quando recebemos retornos sobre o uso do Taura ter sido efetivo comemoramos porque são famílias que confiam na eficácia do nosso sistema e trabalhamos sempre com isso em mente”, conclui Lídia.
Sobre a Biotecno
Fundada em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, a Biotecno atua há mais de 25 anos no desenvolvimento de soluções de refrigeração científica e logística térmica aplicada à saúde. A empresa ganhou projeção nacional durante a pandemia da Covid 19, quando um de seus equipamentos armazenou a primeira dose de vacina aplicada no Brasil. Atualmente possui cerca de 17 mil equipamentos em operação no país e no exterior.

